Na ONU, Comissão Arns denuncia riscos de etnocídio e genocídio

03.03.2020

Um dos oradores da plenária de abertura da 43ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que aconteceu dia 2 de março, em Genebra, na Suíça, foi o líder Yanomami Davi Kopenawa. “Eu não vim aqui para mentir, eu não vim aqui para falar mal do Brasil. Eu vim aqui para alertar”, disse o ganhador do Prêmio Right Livelihood 2019, chamando atenção para a necessidade de “proteger os indígenas isolados”.

No mesmo dia, à noite, Kopenawa fez uma palestra na Universidade de Genebra, onde se declarou muito preocupado com a nomeação de um missionário na Funai, para cuidar dos povos isolados: "A autoridade do Brasil não conhece, nunca andou nas fronteiras. Eles só usam internet”.

A ida de Kopenawa à ONU foi resultado de um esforça das organizações Comissão Arns, Instituto Sócio Ambiental (ISA) e Conectas, que também promoveram, no dia 3 de março, em Genebra, uma audiência independente para denunciar os riscos aos povos indígenas no Brasil.

Nesse evento, que contou com a presença de mais de 30 pessoas, Antônio Oviedo, do ISA, citou um recente relatório feito pelo Instituto que mostra a iminência de novos massacres e risco de genocídio dos isolados. “As condições de novos conflitos estão sendo criadas", apontou.

Representando a Comissão Arns, a jornalista Laura Greenhalgh referiu-se às frequentes declarações do presidente brasileiro, e dos funcionários de alto escalão: “Parece que os povos indígenas são vistos pelo atual governo como obstáculos a serem removidos, de um jeito ou de outro”. E acrescentou: “Os ataques sistemáticos a terras indígenas são uma forma de promover seu genocídio, dada a relação próxima que essa população mantém com suas terras. A imposição de condições à vida desses grupos está, intencionalmente, os levando para a destruição”.

Durante a 43ª Sessão CDH ONU, a Comissão Arns distribuiu um testemunho de Davi Kopenawa sobre a invasão do território Yanomami pelos garimpeiros e sobre a situação dos grupos isolados. No documento, ele descreve com emoção as ameaças recebidas: “As coisas estão assim. Agora os Brancos não vivem longe de nós. Eles não param de se aproximar. Na cidade de Boa Vista, eles se tornaram muito numerosos, vão aumentar sem trégua, e agora eles se exortam uns aos outros. Eles dizem: ‘Sim, vamos nos apoderar dos bens preciosos da terra dos Yanomami. Esses bens ainda não são mercadorias de verdade, mas são bens preciosos, escondidos no cascalho da terra. Nós vamos tomar essas riquezas, e ainda as árvores da floresta e vamos nos instalar nos Yanomami!’. É o que os Brancos dizem uns aos outros e é como eles se encorajam: ‘Venham para Boa Vista! Eu, governo de Roraima, vou lhes dar trabalho! Vocês não serão mais pobres!’”.


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Sessão independente de denúncias sobre violações de direitos indígenas - Genebra, 3 de março de 2020

Davi Kopenawa Yanomami, na sessão independente de denúncias sobre violações de direitos indígenas - Genebra, 3 de março de 2020

Laura Greenhalgh, da Comissão Arns, na sessão independente de denúncias sobre violações de direitos indígenas - Genebra, 3 de março de 2020

Antônio Oviedo, do ISA; e Júlia Busser, ativista e mediadora, na sessão independente de denúncias sobre violações de direitos indígenas - Genebra, 3 de março de 2020

Laura, Antônio e Davi na Universidade de Genebra, dia 2 de março