Antônio Luiz Marchiori, Padre Ticão: daqueles que fazem o bem

André Alcântara e Paulo Sérgio Pinheiro

07.01.2021

Vocação é um termo derivado do latim vocare, chamar. Seu significado pode ser explicado pela vida de Antônio Luiz Marchiori, religioso e líder popular na Zona Leste de São Paulo, especialmente em Ermelino Matarazzo, onde era pároco da Paróquia São Francisco de Assis. Os sinais do chamado cristão que ele expressava estavam em todos os locais por onde passava. Tinha vida modesta, renunciou plenamente ao poder do traje de clérigo para dar poder ao povo, valorizando a participação de leigos e leigas, e continuando o projeto da Igreja Povo de Deus, vivido intensamente em São Paulo desde Dom Paulo Evaristo Arns.

Estava ligado a um Deus que caminha com o povo, que acredita "na rapaziada que segue em frente e segura o rojão", como cantarolou Gonzaguinha. De hábitos simples, viveu intensamente a opção preferencial pelos pobres, dedicando sua vida à construção de uma terra sem males. Esse lugar não era um local tão longe, bastava acreditar na força transformadora da consciência e no poder da partilha. Soube unir interlocutores diversos para dialogar e buscar o bem comum. Com enorme entusiasmo, contribuiu para a construção da Escola da Cidadania da Zona Leste Pedro Yamaguchi Ferreira e da Igreja Povo de Deus em Movimento, onde a leitura consciente do livro sagrado servia de oração e meditação para a ação transformadora de cristãs e cristãos. Sem menosprezar o valor da ciência e da academia para a compreensão da realidade, celebrou parcerias com importantes instituições de ensino, como a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Ensinava que era possível viver consigo e com o próximo. Dessa forma, em sua paróquia, pessoas de grupos com expressões espirituais diversas andavam juntas, participavam das semanas de reflexão, das audiências públicas com autoridades governamentais -- todos assumindo protagonismo na construção do Reino de Deus, aqui e agora. Foi um seguidor daquele Jesus morto na cruz pelas autoridades que usavam Deus para matar o povo. E consciente das consequências de ser profeta, denunciando a indiferença com a vida e anunciando a esperança de outro mundo possível.

Entendia que a beleza de Deus está no encontro de irmãos e irmãs. Acreditava e estava inserido na organização popular, no território onde as pessoas vivem. Acreditou na força transformadora da juventude, por isso partilhou parte de seu chamado ao acompanhamento dos jovens. Era daqueles padres que sabem valorizar a criatividade e o vigor juvenil, estimulando a formação de espaços como a Casa da Juventude, a Semana de Formação Jovem, o campus da Unifesp na Zona Leste, apontando para possíveis caminhos de viver intensamente os valores do Evangelho em um mundo marcado por desigualdade, racismo e opressão. Esse era o Padre Ticão.