‘E, no entanto, é preciso continuar’

José Gregori

30.04.2021

A minha geração vai se extinguir sem ter resposta para três perguntas que queimam como brasa viva. Por que o homem chegou à Lua sem ter acontecido nada? Por que a espécie humana desceu ao ponto de barbaridades como Auschwitz e Bergen-Belsen? E, finalmente, por que no século 21 a humanidade não tinha a menor noção de como enfrentar uma doença que paralisou o mundo?

Eu sou daqueles que vivem com a esperança de que um dia tudo será explicado. Não sei por que nem como cada um alcançará essa compreensão. Mas acredito que não ter resposta para essas e outras questões não nos desobriga da missão de seguir. Provavelmente esse pensamento ajude alguém como eu, um democrata de 90 anos, a expor em poucas palavras o que me sustentou a seguir, apesar da reviravolta mundial. A minha força eu encontrei numa equipe de ativistas, misturados entre as esferas pública, da arte e da cultura, que atende pelo nome de Amigos da Arte.

Há mais de 15 anos essa organização social, gestora dos teatros Sérgio Cardoso e de Araras, do Museu da Diversidade Sexual (MDS), e responsável por inúmeros programas de difusão, contribui, em parceria com o governo paulista, para a execução de políticas públicas voltadas, preponderantemente, para a propagação cultural e artística em todo Estado de São Paulo. São 58 mil ações que atingem mais de 25 milhões de pessoas. Uma organização cujo combustível é o público em prol do interesse público.

Chegamos em março à triste efeméride de um ano do fechamento de espaços, cancelamento de espetáculos e eventos que pressupõem aglomeração. A medida, como se comprova agora, foi mais do que acertada, mas guilhotinou o que nos orientava enquanto entidade: juntar pessoas e possibilitar aplausos. Seria a hora de enfrentar a incógnita das incógnitas: parar ou prosseguir.

Como fazemos tudo em nome da arte e pela cultura, sabíamos que quando ambas agarram alguém não largam mais. Diante do desconhecido não restou alternativa senão nos reinventarmos. Prosseguimos motivados pelo desafio de utilizar todos os meios possíveis para fomentar o acesso à difusão digital, a cada pessoa, onde ela estiver. A esperança transmutada em cultura.

Com a alma baixa, pois um teatro vazio é como uma amada que viajou sem se despedir, nós nos reinventamos amparados no dever e na responsabilidade de honrar o investimento público, assim como manter o trabalho dos nossos colaboradores, parceiros e trabalhadores (técnicos, artistas, produtores) do setor cultural. Em sintonia com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, em apenas 20 dias estava no ar a plataforma #CulturaEmCasa (www.culturaemcasa.com.br). A primeira ferramenta totalmente gratuita de streaming do País com conteúdo cultural das mais diferentes linguagens artísticas foi lançada em abril do ano passado, pouco tempo após o anúncio da interrupção de eventos presenciais em todo Estado de São Paulo.

Criada com o objetivo de oferecer à população acesso amplo e democrático a conteúdos culturais e criativos de alta qualidade, o #CulturaEmCasa pôs à disposição mais de 3 mil conteúdos, com mais de 5,4 milhões de visualizações em mais de 3.300 cidades e 135 países.

A tomada de decisão não significa que tenhamos rompido nosso contato com o público. Ao contrário: a difusão digital permitiu ampliar o alcance da produção cultural. Um comparativo rápido com 2019 demonstra que o processo de produção de conteúdos digitais ampliou o acesso em mais de 80% em apenas um ano. A cada orientação do Plano São Paulo nos adaptamos e reformulamos nossas atividades. Sem nunca parar nossa grata missão: a convergência da produção e da difusão cultural.

Em tempos de desmonte da política cultural no país, a Amigos da Arte, por meio de suas ações, gerou renda para mais de 13 mil trabalhadores no setor, permitindo que o show, apesar de tudo, continuasse.

O vírus, esse inimigo que também se reinventa, prejudicou-nos, tal qual tem feito com o restante do planeta. Mas também jogou luz para a importância do Estado, seja na figura de um sistema de saúde como o SUS ou das políticas sérias e transparentes que seguem, enfrentando a crise e o caos que nos pegou de surpresa.

Passado esse tempo, acho que compreendi parte das três perguntas que me rondavam. Que a Lua era apenas uma passagem para Marte, onde já estamos. Que Belsen e Auschwitz ocorreram num país que hoje tem um dos governos mais democráticos do mundo, gerido por uma mulher (assim como nós na Amigos da Arte). E que a arte e a cultura talvez sejam as únicas aliadas possíveis neste momento para que a gente siga ouvindo a voz do poetinha que sabiamente insiste em nos inspirar: “E, no entanto, é preciso cantar”. Eu confirmo que, no entanto, é preciso continuar, não desistir.

Foi o que fizemos.

Foto: Alexinaldo Granela Borja/Wikipedia

Artigo originalmente publicado na FSP, 29/04/2021