Ato histórico em defesa da Constituição
22 Out 2026, 16:11
Foto: Gerson Penha/Kubix
Mais uma vez, um momento histórico teve lugar no Salão Nobre da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no Largo São Francisco. Completamente lotado por alunos, ex-alunos, intelectuais e representantes da sociedade civil, o local abrigou, na noite do dia 21 de outubro, o Ato em Defesa da Constituição, da Democracia e dos Direitos Humanos, organizado pelo Centro Acadêmico XI de Agosto em conjunto com a Comissão Arns.
Ao abrir o evento, o jornalista Juca Kfouri, membro da Comissão Arns, destacou que o ato, apartidário, tinha como propósito a defesa da Constituição cidadã e citou uma frase do democrata Ulisses Guimarães: “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo”. A professora Maria Paula Dallari Bucci convidou os presentes a cantar o hino nacional, conduzido em vídeo por Daniela Mercury, que também é membro da Comissão Arns.
O professor Calixto Salomão, docente da faculdade de Direito e idealizador do Manifesto em defesa da Constituição, ressaltou que a Justiça depende das escolhas que nós fazemos: “A beleza da democracia é que ela nos oferece os instrumentos para fazer a Justiça e corrigir os rumos da sociedade, sem jamais abrir mão de nossos direitos fundamentais. Entre esses instrumentos, nenhum é tão importante quanto o voto”.
Na sequência, antes de fazer a leitura do Manifesto, Rita Lara, presidente do CA XI de Agosto, disse: “Após lutar para conquistar nossos direitos, precisamos lutar para mantê-los. Por isso estamos aqui hoje em caráter de defensores da nossa Constituição”. A presidente da UNE, Bianca Borges, chamou atenção para “o DNA dos estudantes brasileiros”, que tem uma energia democrática. “Foi assim no enfrentamento à ditadura, foi assim no fora Collor e tantos outros momentos”, completou.
Em nome da Comissão Arns, da qual é membro e foi ex-presidente, José Carlos Dias lembrou da Carta aos Brasileiros, lida na faculdade de Direito, local que abrigou muitas lutas democráticas. “A democracia vai ser mantida, a Constituição vai ser respeitada, não rasgada. Nós vamos vencer porque cada um traz dentro de si uma esperança e não queremos reviver amargas lembranças”. Em seguida, Maria Paula Dallari Bucci destacou o caráter pluralista da Constituição: “Estamos aqui hoje para celebrar esse texto, que nos guia”.
Finalizando o ato, foi lido, pelo deputado Flávio Bierrenbach, um pronunciamento do jurista e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Celso de Melo.
Leia, abaixo, a íntegra do texto do ex-ministro Celso de Mello:
DAS ARCADAS, EM DEFESA DA DEMOCRACIA, DA CONSTITUIÇÃO E DOS DIREITOS HUMANOS
Há lugares em que a palavra assume a força de um compromisso. O pátio das Arcadas é um deles.
Nesta Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, minha querida alma mater, a formação jurídica sempre nos convocou a uma responsabilidade maior: colocar o conhecimento a serviço da liberdade e fazer da consciência do Direito uma resistência à arbitrariedade.
É sob essa inspiração que nos reunimos, nestes tempos de inquietação, para afirmar, com serenidade de propósito e firmeza de convicção: a democracia brasileira deve ser preservada, e a Constituição da República deve ser respeitada por todos, sobretudo por aqueles que exercem o poder.
A Constituição pertence ao povo brasileiro. Nenhum governante pode apropriar-se de sua autoridade. Nenhuma maioria pode converter a vitória das urnas em licença para o arbítrio. Nenhum Poder da República pode pretender-se superior à Lei Fundamental que o instituiu e que delimita suas competências.
O poder é transitório. A submissão à Constituição é permanente.
A legitimidade resultante da via eleitoral impõe responsabilidade a quem se elege. Quem recebe o voto popular recebe um mandato sujeito ao Direito, acompanhado do dever de respeitar a liberdade dos cidadãos, a independência das instituições e a dignidade de todos.
A democracia exige eleições livres, pluralismo, oposição legítima, imprensa independente, respeito às minorias e proteção dos direitos fundamentais. Exige, ainda, que o cidadão possa discordar sem medo e que nenhum brasileiro seja tratado como inimigo por suas convicções.
Os direitos humanos constituem uma exigência irrenunciável da consciência civilizada e um limite intransponível ao exercício do poder. Sua universalidade repele privilégios, discriminações e exclusões: toda pessoa, pela só condição de sua humanidade, é titular de dignidade que o Estado tem o dever de respeitar e proteger. Nenhuma razão de Estado, nenhum clamor de ocasião, nenhuma conveniência política pode justificar a tortura, a perseguição, o racismo ou o tratamento cruel e degradante. Onde um ser humano é humilhado, a humanidade inteira é ofendida; onde o poder consente na barbárie, a República trai o seu fundamento.
A dignidade humana não se submete ao voto das maiorias nem à vontade dos governantes. Nenhuma vida é descartável. Nenhuma pessoa está fora da proteção do Direito.
A divergência é uma expressão da liberdade. O pensamento crítico integra a vida democrática. A oposição exerce um direito que pertence à própria República.
Por isso, recusamos a intolerância que procura silenciar; a violência que pretende substituir o debate; a intimidação que busca constranger instituições; e o culto pessoal ao poder, que transforma cidadãos em súditos.
A Constituição pode ser aperfeiçoada pelos meios que ela própria estabelece. Toda reforma, porém, deve guardar fidelidade aos fundamentos que tornam possível a convivência democrática. A promessa de renovação não legitima a supressão da liberdade.
A soberania popular não confere a ninguém o direito de destruir as condições de seu próprio exercício.
Defender as instituições também significa exigir que mereçam a confiança pública. A independência deve caminhar com a responsabilidade; a autoridade, com a integridade; o exercício de qualquer função pública, com a transparência e a fidelidade ao interesse coletivo.
A República exige probidade de seus agentes e respeito de seus governantes. Sua defesa nos obriga a repelir tanto as investidas autoritárias quanto os desvios que comprometem a legitimidade do poder.
Das Arcadas, ergue-se hoje uma palavra de vigilância cívica. Uma palavra que convoca as novas gerações a compreender que a liberdade depende também da coragem de defendê-la.
Não consentiremos que o medo governe nossas consciências. Não aceitaremos que a força se sobreponha ao Direito. Não renunciaremos à condição de cidadãos livres.
Que deste pátio se projete, sobre o país, uma afirmação inequívoca:
Nenhum poder acima da Constituição. Nenhuma autoridade dispensada de respeitá-la. Nenhum direito fundamental à mercê do arbítrio.
A Constituição da República é o compromisso que nos une na diversidade e protege a liberdade de cada um.
Defendê-la é honrar o Brasil. Preservar a democracia é responder pelo seu futuro.
📝 Link para apoio ao manifesto pela Constituição, pela Democracia e pelos Direitos Humanos: https://c.org/cbSXtTjZK2