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O refém do regime

Paulo Sérgio Pinheiro 18 Jul 2022, 18:17 Artigo de Paulo Sergio Pinheiro no Folhetim Artigo de Paulo Sérgio Pinheiro, no Folhetim, suplemento da FSP, em 1980 - Reprodução

O jornalista Bernardo Mello Franco consultou papéis do Serviço Nacional de Inteligência (SNI) para seu artigo sobre o cardeal Dom Cláudio Hummes (Ditadura via cardeal como ameaça à “paz pública”, O Globo,10.7.22), quando então bispo de Santo André, no começo dos 1980, apoiava as greves dos trabalhadores metalúrgico no ABC paulista. Em um dossiê de imprensa sobre Dom Claudio, Bernardo encontrou um artigo de Paulo Sérgio Pinheiro, publicado no Folhetim, de 11 de maio de 1980.

Folhetim, FSP, 11 de maio de 1980

Luiz Inácio da Silva, o Lula, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, está na prisão há vinte dias. Em vários corações brasileiros paira um grande alivio. No dia seguinte ao da prisão, nos clubes elegantes de São Paulo, la crème de la crème das classes dominantes respirava tranquila. O candidato à presidência da Federação das Indústrias de Estado de São Paulo (FIESP) sr. Luis Eulálio Bueno Vidigal, desdobra-se, nas suas entrevistas à imprensa e à televisão, em assumir com total naturalidade o sequestro e a prisão de Lula, como se fosse totalmente banal que os interlocutores de ontem fossem trancafiados hoje. A plêiade de estrategistas do Palácio do Planalto encasquetou -se com a idéia de que é preciso liquidar a liderança do Lula antes que seja tarde demais. Luiz Inácio da Silva é hoje o grande refém do regime. O que na personagem dessa liderança pode explicar tal unanimidade de sentimentos?

Descarte-se de saída as explicações fundadas simplesmente no carisma. É claro que o traço carismático é elemento constitutivo do líder e não há porque se espantar sobre isso. E a sensibilidade para analisar a conjuntura, a disposição para saber ouvir, o bem falar, o manifestar-se nos momentos adequados, capacidade de somar apoios. Lula exerce esses dons com enorme mestria. Mas outros antes dele, mesmo no movimento sindical, tinham os mesmos dons e nem por isso conseguiram reunir em sua personalidade tal carga simbólica.

O que demarca Lula de outros líderes do movimento operário em outras épocas e de outros seus companheiros é a modernidade da sua atitude. Em toda a atuação de Lula não há nenhuma submissão, que fosse contingente a sua situação de operário. Entenda-se que essa atitude não significa que sua liderança negue a especificidade de membro da classe operária. Mas numa sociedade tremendamente autoritária, elitista e fechada a qualquer tipo de participação das classes populares, Lula atua como se a intervenção das classes operárias no processo político fosse algo absolutamente natural. Lula é contemporâneo de seus pares que atuam nas democracias capitalistas: o patrão não é o paizinho e mestre dos primórdios da industrialização, mas o interlocutor que os operários têm de enfrentar face a face, organizados, dotando-se de todas as informações que o moderno movimento sindical pode obter.

É essa contemporaneidade de Lula que desconcerta e irrita os detentores do poder. Lula para o atual governo é um elemento perturbador do processo de consolidação do atual regime. Lula não "colabora” com o processo de abertura "a que está na cabeça do governo, com a qual ele quer ficar no poder por mais dez, quinze, trinta anos", dizia ele a ISTO É (19.9.1979). A referência para a atuação sindical de Lula não é o espaço tutelado e limitado que o projeto de abertura – que vai até onde começa a classe operária – quer outorgar aos trabalhadores de hoje.

No próprio conteúdo da luta sindical a liderança de Lula inovou e assumiu os temas de ponta do movimento sindical presentes em outras democratas capitalistas. Do alto da sua empáfia o sr. Luís Eulálio Vidigal e o bisonho ministro do Trabalho deploram a "politização" da luta. Suas excelências desconhecem que hoje o movimento sindical não se preocupa simplesmente com salários. Os operários em todos os países se colocam questões a respeito do poder dentro da fábrica, da tomada de decisão empresarial, da política de emprega. Os trabalhadores não se veem mais como simples consumidores ou como uma força de trabalho, que deve ganhar apenas para se reproduzir. O movimento operário hoje discute os próprios caminhos da sociedade e luta para introduzir na fábrica a discussão sobre as medidas que poderão moldar o futuro. Rompeu-se a barreira entre reivindicações econômicas e reinvindicações políticas. E de qualquer modo, é óbvio, não cabe aos patrões nem a seus ministros decidir o que os operários devem reivindicar.

Mas além de todo esse mal-estar que Lula trouxe às cabecinhas de nossos tão sofridos empresários brasileiros, novel retaguarda do patronato mundial, o líder metalúrgico cometeu um crime de lesa majestade. Ousou ultrapassar a luta sindical e intervir na luta política partidária. Ousar fundar o Partido dos Trabalhadores (o PT) foi sentido pelas classes dominantes e pelos detentores do poder como uma gafe imperdoável que não poderia passar sem castigo. Por que tanto temor diante de um partido que certamente encontrará (ou iria encontrar antes do cerco e ocupação neofascista de São Bernardo pelo aparelho de repressão) tantas dificuldades? As classes dominantes e os detentores do poder jogam no longo prazo. Para que o projeto de abertura oficial dê certo é preciso que os trabalhadores, que as classes populares não tenham possibilidade de intervir no processo político sem tutela. A reforma partidária deveria servir como um instrumento que aprofundasse o caráter dissimulador – inerente a qualquer sistema partidário numa democracia liberal – dos conflitos de classe no interior da sociedade. E não – sus! – favorecer a expressão das classes populares.

Mais uma vez aqui Lula e seus companheiros retomam os desafios da grande tradição do movimento operário. A intervenção do movimento sindical na política é uma questão da maior intimidade dos operários. No Primeiro Congresso Operário Brasileiro, realizado no Rio de Janeiro, em 1906, a questão já era enfrentada com tremenda sofisticação pelas lideranças. O primeiro tema do Congresso era exatamente “A sociedade operária deve aderir a uma política de partido ou preservar sua a sua neutralidade? Deverá exercer ação política?". Os desafios lançados hoje pelo PT e por Lula buscam dar respostas contemporâneas a esse velho enigma. É dispensável que as classes dominantes se esforcem em resolver esse problema. Lula prefere que seus próprios companheiros decidam.

Por tudo isso é necessário manter Lula trancafiado como o grande refém do regime e liquidá-lo como líder. Cada dia a mais que Lula e seus companheiros permanecem na cadeia fica mais pesada a capa da infâmia que se abateu sobre os empresários e o governo do Brasil. En hommage a nossos aprendizes de estadista, podemos parafrasear Talleyrand: manter Lula na cadeia, decretar sua prisão preventiva e processá-lo pela iníqua Lei de Segurança Nacional, mais do que criminoso, é um erro. Imperdoável.