Os indígenas podem não ter dinheiro, mas não são pobres. E são hoje guardiões de nosso futuro. - Manifestação da Comissão Arns

Para que nunca mais aconteça. Seguiremos caminhando

30 Mar 2026, 9:12 caminhada 2026 2 Manifestantes caminhaaram do DOI-Codi ao Monumento aos mortos e desaparecidos, no Ibirapuera - Foto: Gerson Penha / Kubix

Com o apoio da Comissão Arns e de mais de 30 organizações da sociedade civil, movimentos sociais e entidades de direitos humanos, foi realizada dia 29 de março, em São Paulo, a 6ª edição da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado. Centenas de manifestantes se concentraram a partir das 16h diante do antigo prédio do DOI-Codi paulista, no bairro do Paraíso, onde funcionou um dos principais centros de repressão e tortura da ditadura militar brasileira.

Dali, o cortejo seguiu em direção ao Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, no Parque do Ibirapuera. Familiares das vítimas levavam flores, velas e cartazes com os nomes de mortos e desaparecidos do período da ditadura e de episódios mais recentes de violência policial. O ato, que este ano teve como lema “aprender com o passado para construir o futuro”, foi organizado pelo Movimento Vozes do Silêncio, iniciativa do Instituto Vladimir Herzog e do Núcleo de Preservação da Memória Política.

caminhada 2026 palco

No Ibirapuera, representantes das entidades organizadoras leram o Manifesto da Caminhada do Silêncio 2026, reproduzido a seguir:

"Hoje, caminhamos em silêncio, mas não em ausência. Nosso silêncio é a presença viva, é memória que resiste, é a voz que ecoa nos passos de cada pessoa que se recusa a esquecer.

Saímos de um lugar marcado pela dor, o antigo DOI-Codi, onde o Estado torturou, matou e tentou apagar histórias. E seguimos até um monumento que insiste em lembrar: as histórias não foram apagadas.

Nossos mortos não estão no passado. Nossos desaparecidos não são ausência. Cada vítima de violência do Estado é permanência. Se a Caminhada do Silêncio nasceu da urgência de resistir, seguimos caminhando porque ainda é preciso.

Este ato nasceu quando a democracia voltou a ser ameaçada de forma aberta, quando o autoritarismo deixou de ser lembrança e voltou a ser projeto. Hoje, anos depois, seguimos aqui, porque a ameaça não desapareceu. Ele se transformou, se reorganizou e segue à espreita.

Nunca foi tão importante defender a democracia. E nunca podemos esquecer: essa luta é contínua. Relembrar para não repetir. Ocupar a memória para não esquecer nossa história.

Porque sem memória, a violência se naturaliza. Sem verdade, a mentira se institucionaliza. E sem justiça, a barbárie se repete.

A violência de Estado não ficou no passado. Lutar por memória, verdade e justiça é afirmar que não aceitamos a impunidade. É exigir a responsabilização de torturadores, de seus cúmplices e daqueles que financiaram o terror.

É dizer, com todas as letras: ditadura nunca mais. Tortura nunca mais.

Este manifesto não é apenas denúncia. É compromisso.

Por isso, fazemos um chamado às novas gerações que não viveram o terror, mas herdam suas consequências. À sociedade civil que não pode se calar. Às instituições, que precisam ser defendidas, mas também transformadas.

Este é um tempo de escolha: entre esquecer ou lembrar. Entre repetir ou transformar. Entre silenciar ou agir. Sabemos que resistir não é apenas lembrar o passado. Mas disputar o futuro.

Hoje, nosso silêncio fala. E o que ele diz é simples e inegociável: para que nunca se esqueça. Para que nunca mais aconteça. Seguiremos caminhando".