Visita ao memorial da Resistência exalta valor da democracia
2 Out 2026, 17:43
Foto: Aura Lopes
A Comissão Arns e o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), em parceria com o Memorial da Resistência de São Paulo, promoveram dia 2 de outubro uma visita guiada à exposição de longa duração “Ditadura Nunca Mais: memórias de repressão e resistência políticas”. O percurso, dedicado à preservação da memória sobre a ditadura civil-militar brasileira, foi ilustrado por relatos de experiências de repressão e de resistência política.
Participaram da visita o criminalista José Carlos Dias, conselheiro do IDDD e membro da Comissão Arns, que atuou na defesa de centenas de presos políticos; o historiador Luiz Felipe de Alencastro, presidente da Comissão Arns; Belisário dos Santos Jr., advogado de presos políticos e membro da Comissão Arns; e Rita Sipahi, advogada, conselheira do Memorial da Resistência e ex-presa política.

Instalado no edifício que abrigou o Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops/SP), órgão responsável pela repressão política durante parte significativa da ditadura, o Memorial da Resistência transformou o antigo espaço de repressão em lugar de memória e reflexão. A exposição apresenta uma linha do tempo que percorre diferentes períodos autoritários da história brasileira, desde a era Vargas, reunindo registros das práticas de perseguição política, além de testemunhos de pessoas que vivenciaram os chamados “anos de chumbo” e integraram de diferentes frentes de resistência.
Durante a visita, José Carlos Dias falou sobre momentos marcantes de sua atuação como advogado durante o regime militar. Relatou um episódio que considera “o mais doloroso” de sua carreira, quando esteve com Heleny Guariba pela última vez, antes dela ser capturada pela polícia. “Ela me ligou e marcamos de nos encontrar às 8 horas em ponto na entrada de um prédio. Quando cheguei lá, vi que havia um carro suspeito, com três homens dentro. Quando eu a aviste, fui em direção a ela, a abracei, o que ela estranhou, pois não tínhamos essa intimidade, e falei que ela estava sendo vigiada, que precisava fugir. Ela entendeu a situação e correu. Conseguiu sair do país, mas foi pega e assassinada”.
Santos Jr. destacou que, na época da repressão, no início, havia um processo penal, a busca e apreensão, em que você busca algo, apreende e documenta: “Depois, a coisa tornou-se apenas uma exibição e apreensão. A busca não se documentava, pois geralmente era uma ação violenta, com a supressão total do processo penal, que atingia pessoas inocentes”. A sistemática de segurança nacional envolvia os órgãos de repressão de braço força das Forças Armadas, acrescentou.
Alencastro contou como era o acolhimento dos brasileiros exilados na França. “A partir de 1970, começaram a chegar pessoas que haviam sido torturadas. Era uma situação difícil de lidar, pois não era fácil animar uma pessoa que está saindo de um horror como esse e conseguir que ela se animasse para seguir uma vida nova, fazer um curso, uma pesquisa. Alguns se suicidaram, apesar de todo o cuidado e conforto que os amigos procuravam proporcionar. São coisas que a gente não esquece nunca”, frisou.
Rita também compartilhou suas lembranças e revelou que, após serem libertados, os presos políticos tinham muita dificuldade em falar do que tinham sofrido. Passaram anos sem tocar nesse assunto, diz ela. “Até que, já nos anos 2.000, uma psicóloga estrangeira formou um grupo de mulheres do qual eu fiz parte e, aos poucos, fomos aprendendo que, ao contrário do que pensávamos, a nossa cura estava em falar, em expor o que tinha acontecido em todos os detalhes cruéis. Era manter a memória e a verdade, para que aqueles crimes nunca mais se repetissem”, contou.