Chico Buarque e a construção do humano

Laura Greenhalgh

03.06.2019

O prestigioso Prêmio Camões de Literatura, concedido este ano ao compositor e escritor Chico Buarque, destaca a transversalidade de uma obra poética já de meio século, expressa não apenas no cancioneiro conhecido, mas em páginas de ficção, peças de teatro, espetáculos para crianças e até no cinema brasileiro o criador deixou suas marcas. Este prêmio, para pessoas da minha geração – e ainda somos muitos! –, traz felicidade. Até parece que alguém da família foi o contemplado.

Cabe destacar uma faceta da obra do Chico: a permanente construção (por coincidência, título de uma das suas mais belas composições) de um olhar humanista sobre os direitos humanos. Há mais 50 anos Chico vem erguendo, “tijolo por tijolo num desenho mágico”, um edifício poético sobre pilares da justiça social e da solidariedade entre as pessoas, ao insistentemente propor algo básico, porém tão difícil: ver o outro.

Quando bem jovem, cantarolou “estava à toa na vida, o meu amor me chamou...”, ao som de pífaros, Chico já havia iniciado sua observação social aguda. Tanto que, quase ao mesmo tempo, ele nos apresentava um certo “Pedro pedreiro, penseiro...” – operário da construção civil que espera o trem, o sol, um prometido aumento de salário, a sorte na loteria, o filho para o mês que vem... enfim, a vida como eterna espera.

E Chico não parou mais. Um sobrevoo sobre a sua discografia mostra que ele também “observou” as mulheres, os negros, as crianças, as prostitutas, os imigrantes, os párias da sociedade. Cantou olhando para eles. Cantou apelando para a nossa sensibilidade. Cantou denunciando, aí sim, a desigualdade brasileira, da qual estamos longe nos livrar.

“Ver o outro” tornou-se um desafio no Brasil. Numa época de redes sociais inflamadas, o que não se faz é justamente isso. Ao contrário, melhor negar o outro. Desqualificar aquele com o qual não concordamos. Criar tensões para gerar reações, atiçando os preconceitos e as fobias sociais.

Sérgio Buarque de Holanda, grande historiador brasileiro, mostrou para todos, e não só para o filho Chico, as mazelas profundas de um país injusto e autoritário desde a origem. País que se move ainda hoje pela assimetria de forças e de oportunidades. Está tudo nos livros do Sérgio. Está tudo na poética do Chico. A obra de ambos inspira uma tomada de posição clara no campo dos direitos humanos no Brasil, algo que inclusive é ponto consensual na Comissão Arns: não podemos retroceder.

Muito ainda a fazer para desarmar a violência doméstica que mata as mulheres. Para combater o preconceito cotidiano em torno de jovens negros pobres, tomados automaticamente como suspeitos em ações policiais. Para que as crianças da periferia possam circular num shopping center da vida e sem constrangimentos ver uma exposição ou tomar um lanche, já que dinheiro para butiques elas não têm. Para que a segurança pública, à qual todo cidadão tem direito, não se faça com snipers encarapitados em telhados e helicópteros, a disparar rajadas contra a população. Para que escolas e universidades sejam vistas como instituições formadoras, portanto, essencialmente livres e necessariamente democráticas.

Há um longo caminho na construção dos direitos humanos e da justiça social nesse Brasil de severinos, marias, genis, pedros pedreiros. Mas a obra do Chico, tão simbólica e imagética, convida-nos a seguir em frente nesse trabalho, cantando a esperança: “Dono do abandono e da tristeza |comunico oficialmente | que há lugar na minha mesa| Pode ser que você venha por mero favor | ou venha coberta de amor | seja lá como for | venha sorrindo, ai | Benvinda, benvinda, benvinda...”. *

_*Versos da canção Benvinda, composta e gravada por Chico Buarque em 1968. _

_ Foto: João Ximenes/Wikimedia Commons_