Está se tornando perigoso sonhar um país mais justo, igualitário e fraterno

Makota Celinha

22.08.2019

Eu sou Makota Celinha Gonçalves, uma mulher negra, candomblecista, mãe de um jovem negro rastafári, sei e sinto na pele por mim e por meu povo, com todas as entonações possíveis, o efeito perverso da violência e do ódio, hoje infelizmente tão comuns em nosso país.

Venho aqui hoje para falar da importância desta iniciativa principalmente para nós, negras e negros, que somos as maiores vítimas dos crimes de racismo, intolerância religiosa, homofobia, violência policial e feminicídio. Venho de uma tradição religiosa que compreende o outro enquanto sujeito de direitos, completo, complexo e humanizado. Por isso nos é tão difícil entender porque tanto ódio, tanto preconceito contra o outro, que nos é tão semelhante, diferente apenas por ser único, numa total sinfonia de diversidade.

Para nós, negras e negros, que há séculos vivemos uma história de negação de nossa importância política, social e econômica no Brasil, os poderosos de nosso país não honram a ideia de ser o Brasil uma pátria mãe gentil. Sua história é a história da negação dos negros, dos mais pobres. Forjaram um país de grandes diferenças sociais e econômicas, onde uns cada vez têm mais e outros cada vez têm menos. Um país marcado pela violência e desrespeito à democracia, à liberdade. Onde sonhar por um país mais justo, igualitário e fraterno se torna perigoso.

Nosso país é jovem, mas traz em si marcas profundas do desrespeito aos mais simples. Um país que tem a segunda maior população negra do mundo e que ainda não deu conta de nos perceber e nos tratar como iguais em direitos. Um país construído pelo sangue negro escravizado, onde quem se aproveita desta construção é uma pequena elite branca, que nega sua história. Um país que tinha tudo para ser uma das maiores nações do mundo, mas que ainda mata sua gente, pelo simples prazer de eliminar os que pensam diferente. Em nosso país a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado por arma de fogo. O extermínio em massa da juventude negra é a face mais cruel e perversa do genocídio do povo negro no Brasil.

A história nos traz dados suficientes sobre a forma como as negras e os negros foram e são tratados nas Américas. Fomos coisificados enquanto negros e as mulheres negras em particular sofreram esse processo de forma mais violenta o significado desta dominação, não tendo o direito ao seu próprio corpo, ao seu amor e a sua família, sendo tratada por longos períodos da história como objeto constante do abuso sexual e social dos senhores de engenho. Esta violência perpetrada contra as mulheres negras é ainda recorrente na atualidade através da violência doméstica, social e econômica. Basta vermos os dados estatísticos onde a mulher negra figura como uma das maiores vítimas do feminicídio. Enquanto isso, ouvimos de autoridades de nosso país que a violência contra a mulher é resultante do poder que hoje as mesmas exercem na sociedade e que isso amedronta e intimida os homens, tirando assim a realidade do que representa a violência sexual e social praticadas historicamente contra as mulheres e em maior escala contra as negras.

O que demonstra que a opressão, a desigualdade e a discriminação contra a mulher negra, que para muitos é considerada como história do passado, que muitos fingem esquecer, está cada vez mais presente e viva no imaginário social e adquire novos contornos e funções em uma sociedade que se diz democrática e plural, mas que em seu interior mantém intactas as relações de gênero segundo a cor ou as raças instituídas no período da escravidão.

Viemos ao longo de décadas buscado a construção de um mundo melhor, sempre atuando na defesa intransigente de nossos direitos, vimos muita gente linda brotar na consciência negra, gente que hoje colore nosso país com as alegres cores da diversidade. Vimos o renascer da democracia, após anos de opressão e ditadura. Sabemos porque o medo é real, sabemos o quanto dói não poder andar livremente, não poder rezar e até mesmo dançar. Assim como muitos de nós, não vivi os anos de chumbo em sua totalidade, não fui torturada, e não preciso ter vivido esta dor para poder falar que não a merecemos de novo.

Tenho medo pelo meu filho, pelas filhas e filhos de meus amigos e também dos que nem são meus amigos; tenho medo pelo senhor, pela senhora, pelo jovem; tenho medo do passado cruel que teima em querer voltar. Tenho medo pelo que sei, pelo que vivi e também pelo que milhões de brasileiros tiveram que viver.

Mas, esse medo pode e deve ser vencido, pela esperança de inversão. Quero trocar o ódio, o desprezo, o racismo, a homofobia e o machismo que vejo nos olhos dos que nem sabe o real motivo de tê-los, pelo amor e pela razão. Pela serenidade de compreender a diversidade, de entender que a outra e o outro só é a outra e o outro, porque não sou eu. Mas que somos todas e todos iguais em direitos e deveres. Quero falar com todos os brasileiros, independente da fé que professam ou não, cidadãos e cidadãs de bem. Eu não sou cristã; mas, isso não me faz melhor ou pior que ninguém. Me faz diferente em meu direito de ser. Vivemos em nosso país hoje, uma cultura de ódio, de violência, que só nos faz mal, pois fere mortalmente nossa convivência social. Estamos assistindo a cada dia que passa o crescimento da banalização da vida do outro. Não mais nos importando com coisas simples e banais como sentimento, amizade e respeito.

Posso afirmar para vocês sobre a dor que é, para nós das tradições de matriz africana – que nunca saímos de nossas casas para quebrar nenhum outro templo, ou mesmo para catequisar e conquistar fiéis nas portas, até porque esta prática não condiz com o que acreditamos sobre liberdade, entrega, doação – vermos nossos templos depredados, nossos sagrados quebrados, vilipendiados, é uma dor excruciante, sem paralelos, é como se arrancassem de nós um pedaço e nos deixassem aleijados de nossa subjetividade. Sobreviver a isso tudo tem sido muito difícil e dolorido. Mas, sobreviver é necessário até porque nossa fé é maior que a empáfia e a prepotência dos que se acham melhores.

Infelizmente, as pessoas têm usado o nome de Deus e de Jesus para oprimir, matar, depredar, e isso a meu ver vem ao encontro a uma não profissão de fé, até por que esses atos são feitos em nome de quem deveriam ser feitos atos de amor, de respeito e solidariedade – afinal, a pessoa que deu o nome a esta importante corrente da civilização, o cristianismo, foi Jesus Cristo.

Uma pessoa, um homem que merece de todas e todos nós nossos mais profundos respeitos. Pelo pouco que estudei dele e de sua história, ele veio para salvar os doentes, não os sãos; os impuros, não os puros; viveu entre o que hoje chamariam de escória, mas viveu intensamente, tanto que até se doou. Disse para dar a César o que era de César, a Deus o que era de Deus e morreu em nome do amor. Portanto, não consigo compreender que em nome desse homem, 2019 anos após seu nascimento, existirem pessoas que em nome do que acreditam ter recebido dele como exemplo e ensinamentos, caminhem pelo caminho do ódio, pregam a morte através do armamento civil, defendem a família, mas aceitam a homofobia e pregam a morte dos gays.

Nesta hora minha gente, não tem como ficar em cima do muro, é sujar as mãos em sangue de seus irmãos, ou acreditar que a democracia ainda é a melhor solução. Não cabe nesses momentos a dúvida, o titubear diante de um impasse, a democracia tem lado, sim, e nós sabemos disso. Inocente ou não o Brasil pode fazer parte de uma história. A mesma história que assistimos na ascensão da Alemanha nazista, um desejo muito grande de mudança e uma sociedade doente e cansada, que jogou suas fichas no Novo, acreditou na mudança e na transformação que Hitler traria e deu no que deu. A Segunda Guerra Mundial e a morte de milhões de pessoas, que traziam consigo apenas a marca de ser diferentes do sonho prepotente de uma raça ariana.

Fácil, não é. Aliás, a vida não é fácil. O que não significa que não valha a pena ser vivida. A vida é bela e merece ser vivida em plenitude, por isso escolher o que queremos nesse momento é a chave para um novo futuro. Um futuro de inclusão, de participação, de democracia, ou um futuro sem esperanças para os mais pobres, os negros, as mulheres, os indígenas, os quilombolas e a comunidade LGBTQI.

É só colocar os pingos nos “is”, prestar bem atenção nos detalhes que às vezes não queremos ver e principalmente acreditar que mudança para valer começa inclusive em nós. Em nossos desejos e em nossas posturas. De nada adianta falar o que não pratico, o que não vivo. Se tenho uma fé, seja ela qual for, ela tem que ser uma fé viva.

Discurso proferido por Makota Celinha, coordenadora do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab), na instalação da Mesa Nacional de Diálogo contra a Violência, em 15 de agosto de 2019