"Hoje a culpa é do funk"

Gilson Rodrigues, em depoimento a Laura Greenhalgh

04.12.2019

Moradores de Paraisópolis saem em caminhada a partir das 17 horas de hoje, para se concentrar em ato nos portões do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Pedirão rigor na apuração sobre a Operação Pancadão da PM, investida policial que no último final de semana resultou em nove mortes e inúmeros feridos, todos adolescentes e jovens.

Pedirão, também, a presença do Estado em uma favela de 50 mil habitantes, com carências múltiplas, mas cheia de projetos sociais em andamento e potencialidades criativas. Acima de tudo, cobrarão uma presença que não seja a repressora.

Em depoimento à jornalista Laura Greenhalgh, integrante da Comissão Arns, Gilson Rodrigues, o mais conhecido líder local, fundador do Instituto Escola do Povo e presidente da União de Moradores de Paraisópolis, explica a situação de perplexidade e indignação da comunidade após a atuação da PM:

"Agradeço o interesse da Comissão Arns em ouvir o que nós, moradores de Paraisópolis, achamos dessa operação policial, claramente uma emboscada para reprimir a juventude. O que se passou no último fim-de-sema foi uma situação anunciada. O Baile da 17 existe há sete anos, foi crescendo, crescendo, mas eu diria que sempre houve uma hostilidade da PM em relação a esse tipo de manifestação cultural. E não só aqui. Existe em outras partes onde o funk está presente. Só que essa animosidade em Paraisópolis piorou muito nos últimos tempos, tanto que estávamos temendo um confronto mais forte, a qualquer momento.

Aqui, o baile acontece semanalmente, dura em geral dois dias inteiros, e pode reunir mais de 30 mil pessoas. Os carros de som vão chegando, estacionam e começam a animar a multidão. O baile vai continuar acontecendo, mesmo com a repressão e as mortes dos últimos dias. Esta festa em Paraisópolis integra a agenda do funk nacional – talvez seja o baile no gênero mais importante atualmente. 80% dos frequentadores são pessoas de fora da nossa comunidade. Vem gente de muitos lugares, inclusive dos bairros ricos e chiques de São Paulo. Vêm também artistas e famosos, daí os jovens fazem o quê? Tiram fotos com eles, fazem selfies, esse é o programa da garotada.

Se tem barulho forte e reclamação? Tem, sempre teve. Especialmente dos moradores da região central, onde o baile acontece. Temos tentado melhorar essa situação. Há tempos nós, da União dos Moradores de Paraisópolis, temos chamado a atenção do governo e da prefeitura para o tamanho desta festa. Temos pedido apoio para garantir uma infraestrutura mínima aos frequentadores: banheiros químicos, por exemplo. Espaços de acolhimento. Medidas de segurança em defesa da população, e não contra ela. A gente nota que uma boa parte dos jovens que vêm para o Baile da 17 não tem outras opções de lazer, vem aqui para se divertir.

Dizer que o baile está nas mãos do PCC é besteira, até porque, se for assim, a gente poderia dizer que a cidade inteira está nas mãos do PCC. O que eu posso afirmar é que o crescimento do Baile da 17 foi acontecendo de forma espontânea. É uma coisa que tem a ver diretamente com o funk, um fenômeno jovem e nacional.

Este é o momento de acompanhar os enterros das vítimas, de ver como estão os feridos, de consolar as famílias, enfim, é um momento de dor muito grande para Paraisópolis. Mas, sabemos que o desejo de reprimir da PM é coisa antiga. Aconteceu agora e pode acontecer de novo. O meu sentimento é o de que houve uma coisa organizada. Não tem fundamento essa história de motoqueiro que saiu atirando em policial, essa versão já está caindo por terra. O que houve foi uma emboscada policial que fechou as saídas das duas ruas principais no local da festa, para impedir a passagem das pessoas mesmo. Entre tiros, pancadaria e pânico geral, os jovens entraram nas vielas sem saída, tentando se proteger ou escapar. Como a grande maioria é gente que não vive aqui e não conhece a geografia de Paraisópolis, foram facilmente encurralados, agredidos e, naquele caos, pisotearam e foram pisoteados.

Mais uma vez, vamos cobrar a presença do Estado em Paraisópolis, uma comunidade com muitos projetos sociais, com escolas, balé, orquestra...mas a minha impressão é a de que iremos viver de crise em crise. Há oito anos venho pedindo aos prefeitos de São Paulo que liberem recursos para infraestrutura de lazer e segurança do Parque de Paraisópolis. É uma área importante, que pode oferecer muita atividade e entretenimento para a juventude. Entra prefeito, sai prefeito, e nada acontece. O parque continua fechado. De quem é a responsabilidade? Hoje, a culpa é do funk".