Sérgio Ricardo dos Direitos Humanos

Paulo Vannuchi

27.07.2020

Nos primeiros dias deste blog, um ano atrás, Laura Greenhalgh escreveu sobre a forte ligação entre os temas dos direitos humanos e a vasta obra de Chico Buarque. Hoje é dia de celebrar Sérgio Ricardo, que acaba de partir, aos 88 anos, dois meses depois de eliminar em seu corpo a presença do vírus maldito, no que terá sido a sua derradeira luta heroica.

As lutas foram muitas. Entremeadas sempre de lirismo, exaltação do amor, esperança de paz. Crença consistente na liberdade, na igualdade e na solidariedade, tripé que sustenta como viga mestra a construção histórica dos direitos humanos.

Desde sua morte, já pudemos ler mensagens lembrando que ele não se entregou ao Capitão, como prometeu em acordes épicos na trilha para Deus e o Diabo na Terra do Sol. Nos dias atuais – tempos de pandemia e ódio –, deve ter lembrado algumas vezes de seu verso “alguém soluça e lamenta todo esse mundo tão mal”, que escutamos logo aos 16 minutos de Bacurau, filme onde o espírito do baiano Glauber parece ter baixado em cheio nos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Na música de Sérgio Ricardo, o épico e o lírico caminharam sempre de mãos dadas. Uma ode ao amor está presente em tudo. Às vezes aparece em suaves fórmulas sintéticas como no verso: “porque quando se tem tanto amor, a gente pode ver muito mais”; ou ainda:

“O mar beijando a areia
E o céu, a lua cheia
Que cai no mar, que abraça a areia
Que mostra o céu e a lua cheia
Que prateia os cabelos de meu bem”

Lá de longe, cantou a pobreza da favela no sorriso de uma criança linda, cujo sonho era ganhar de Papai Noel uma calça branca. Propôs também, naquele tempo, “canta, canta, nasceu uma rosa na favela”. Falou de Zelão, que “dizia sempre a sorrir que um pobre ajuda outro pobre até melhorar”.

Ninguém pense que esse lirismo em torno da pobreza abrigasse alguma ingenuidade sobre a violência das disputas envolvendo o poder. Morador de um apartamento muito simples no Vidigal, com belíssima vista para o mar, engajou-se na resistência da população local às investidas do mercado imobiliário capitalista:

“No Vidigal tem uma turminha de bamba
Que não se esquenta com as ameaças do rei.
Se vem o mal
Toda a favela se levanta (...)
Não se brinca com o poder
Que o poder do povo é bem maior”

Sérgio Ricardo foi um dos mais invejáveis artistas brasileiros no destemor com que enfrentou a ditadura de 1964. Em 1968, compôs e cantou Calabouço, denunciando a violência da repressão política que se abateu sobre o movimento estudantil e ceifou a vida do jovem secundarista Edson Luiz Lima Souto em 28 de março daquele ano.

Cantou essa música na Catedral da Sé, em março de 1973, durante a missa celebrada por Dom Paulo Evaristo Arns para denunciar o assassinato sob torturas – no DOI-Codi do major Tibiriçá/Brilhante Ustra – de Alexandre Vannucchi Leme. Milhares de estudantes se reuniram pela primeira vez, em pleno governo Garrastazu, para desafiar a ditadura, conscientes do risco de serem levados daquele templo diretamente para o mesmo porão onde era comandante o grande herói de Bolsonaro e Mourão.

Voltou a cantar a mesma música na mesma catedral, 40 anos depois, tempos de liberdade, agora com celebração de Dom Angélico Sândalo Bernardino, partilhando a apresentação com o notável maestro Martinho Lutero – ceifado há pouco pelo furacão pandêmico – e seu Coral Luther King, sob promoção do Instituto Vladimir Herzog.

Esse destemor ainda não diz tudo sobre a coragem militante de Sérgio Ricardo, ao emprestar sua voz, seus versos e seu violão para resgatar figuras odiadas pelas elites dominantes.

Sobre Guevara, cantou:

“Che, eu creio seja eterna
Essa rosa agreste e branca
Brotada no teu sorriso
Que nem mesmo a morte arranca”

Para Carlos Lamarca compôs Tocaia, após sua morte, em 1971, no Sertão da Bahia, tecida em linguagem metafórica para enganar a censura burra – como todas as censuras. Ao cantar essa música, Sérgio Ricardo trocava “na marca” por Lamarca, sempre que o auditório estivesse eventualmente livre de espiões.

De origem familiar libanesa e sem ascendência africana que seja conhecida, suas músicas foram pioneiras na percepção – hoje ainda engatinhando – sobre o quanto a igualdade racial adquire centralidade num país como o Brasil. Lembrou Castro Alves na praça do povo, compôs com abundância sobre os ritos afro-brasileiros, suas divindades e sua cultura.

Pintou alguns momentos de sagrada rebelião:

“Me acuda aqui, seu feitor,
Que esse negro me esfola.
Está quase a me matar
Na brincadeira de Angola”

Em outras passagens, gravou o suave sonho da liberdade:

“Depois que eu vim de Luanda
Andar andei, esperando achar
Onde estará Palmares.
Será que jamais encontro o meu lugar?”

É dele a música que todos lembramos pelo pot-pourri de Elis Regina e Jair Rodrigues:

“Fui escravo no Reino
E sou escravo no mundo em que estou,
Mas acorrentado ninguém pode amar”

Também a delicadeza e os dilemas da diversidade sexual estão presentes na sua pouco conhecida parceria com Drumond, quando musicou o cordel do poeta mineiro Estória de João-Joana a respeito da temática mais conhecida em torno da sexualidade de Diadorim, no Grande Sertão de Guimarães Rosa.

Por tudo isso, é possível não apenas crer na volta de Sérgio Ricardo – “sem dar muita explicação” –, mas também que ele continuará sempre por aqui, em nossa lembrança e na criação de cada artista decidido a professar o mesmo sonho de liberdade, igualdade e solidariedade.

Já se disse que a defesa e promoção dos direitos humanos constituem aquele tipo de profecia que se realiza pelo simples fato de tentarmos.

De certa forma, essa mesma ideia está presente nos versos da música que compôs para Ponto de Partida, peça de Guarnieri inspirada no martírio de Vladimir Herzog, encenada em 1976, sendo um dos atores o mesmo Othon Bastos que já tinha sido Corisco na vida, aquele que não se entregava não, igualzinho Sérgio Ricardo:

"Tenho na minha vida
A busca como medida,
O encontro como chegada
E como ponto de partida"