O hobbismo político não ameaça a extrema direita

Paulo Sérgio Pinheiro

01.09.2020

Durante mais de um ano, o governo de extrema direita no Brasil tem realizado com afinco seu programa de destruição das garantias das instituições democráticas. Apoio explícito ao fechamento do Supremo Tribunal Federal, completado com fogos disparados por seus sequazes contra o prédio e ameaças de prisão de todos os “vagabundos” membros da corte. Fechamento do Congresso Nacional. Invectivou-se baixar um novo Ato Institucional nº 5. Ameaças a jornalistas renovadas diariamente num cercadinho na entrada do Alvorada. No Palácio do Planalto, opera uma junta militar informal composta de dez ministros militares, sendo um da ativa.

Pesquisas de opinião têm demonstrado a consolidação do apoio a toda essa pauta, à qual deve ser somada a alta satisfação com a inação do governo federal em relação à pandemia da Covid-19. Expressiva satisfação com o “e daí?”, que corresponde ao che me ne frego di tutto mussoliniano, pouco me importa, porque todos temos que morrer. Os alvos dessa necropolítica, largo contingente pobre e em extrema pobreza, são os mesmos que aplaudem o governo de extrema direita e seu auxílio emergencial – e nem percebem que graças ao Congresso e a oposições.

Diante dessa crônica da morte anunciada da democracia e do estado de direito, o que fazem aqueles que se opõem a esse debacle? Entregam-se ao que poderia ser chamado de hobby político, atividade de recreio praticada, em geral, nas horas de lazer da militância de mentirinha.

Os hobbistas políticos dedicam um tempo formidável a ficar a par de todos os dramas políticos, cheques da primeira dama, lavagem de dinheiro na bombonière de um de seus enteados, o menu num dia de festa do pagador da rachadinha enrolado com a milícia. Mas não têm nenhum tempo para o trabalho político propriamente dito, aquele que deve visar ao poder.

O hobbismo político está presente em diferentes pontos do espectro político, mas padece especialmente entre a elite branca, com educação superior (a minoria que não apoia a extrema direita), e situada no centro-esquerda ou na esquerda. As consequências são desastrosas.

“O hobbismo é uma séria ameaça para a democracia porque está desviando a ação de cidadãos bem intencionados de se organizarem para a conquista do poder político”. Eis o diagnóstico implacável do cientista político Eitan Hersh, que acaba de publicar Politics is for power: how to move beyond political hobbyism, take action, and make real change [Política é para o poder: como se mover além do hobbismo político, passar à ação e contribuir para a real mudança], da editora Scribner.

Esse hobbismo reduz a política a dedicar horas por dia ao Facebook, aos sites da oposição, comentando posts, assestando alvos com o Twitter. Toda essa atividade frenética toma a política com um passatempo ou entretenimento. O que fazem está tão perto do engajamento político quanto “assistir” a um campeonato de futebol está perto de “jogar” futebol.

Fica claro que todo ativismo político bem-sucedido envolve fazer conexões socialmente significativas, duráveis nas comunidades em que estamos inseridos ou nas quais queremos nos inserir. Uma ideia central de Hersh é que “a política deve servir para contribuir para se conquistar o poder e não perder tempo em pôr os sentimentos acima de estratégias”. O execrável dossiê em que fui envolvido não foi apenas uma iniciativa calhorda. Na realidade, o governo de extrema direita percebeu, que – não eu, claro – mas os chamados policiais antifascistas não estavam fazendo hobbismo político, mas propondo críticas e alternativas à segurança pública, em uma disputa efetivamente política. E os paus mandados no Ministério da Justiça resolveram agir enquanto cedo.

Foto: Brasil de Fato