Uma lenda ainda viva: Dom Paulo Evaristo Arns

Belisário dos Santos Jr.

05.10.2020

“Churchill, Roosevelt e Stálin. Os três, embora sempre informados, não sabem quantas mães, quantas crianças, foram vítimas dos incessantes, e às vezes desnecessários, bombardeios. Algumas ou muitas cidades, como é evidente, estão em ruínas. Os monumentos, sobretudo as catedrais, que levaram centenas de anos e milhares de vidas para serem construídas, pouco ou nada falam a esses três homens vitoriosos. Todos, ou quase todos, aplaudem. Por que guerra? A fúria de um só bandido armado tira a respiração e o anseio de felicidade a nações inteiras. Agora, a fome é de pão, água e vida. Amor”. (Paulo Evaristo Arns, como historiador, rememorando os momentos em torno da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos)

Essa é a face que mais admiro em Dom Paulo. Sim, assim no presente, porque sua obra, sua fé, sua doutrina, suas palavras ainda ecoam nesta cidade, neste país, tomam novas formas de indignação contra injustiças, inspiram à ação solidária, sem receio de desagradar a qualquer autoridade, grupo ou pessoa.

Homem generoso, renunciou ao palácio para beneficiar as comunidades de base da periferia. Príncipe da Igreja, mas homem de ação, com o risco de sua vida, intermediou a negociação com os sequestradores, em rumoroso caso, onde a polícia civil, a militar e três cônsules não tinham tido sucesso. A vítima e os seus captores sobreviveram.

Advogados paraguaios de direitos humanos contam que, na visita feita a Asunción, ainda sob o governo Strossner, recebido pelo vice-presidente (honraria apenas dada a um cardeal), e perguntado o que fazer para agradá-lo, respondeu com a brava simplicidade com que sempre enfrentava o poder: “Soltem os presos políticos”. Muitos foram soltos naquela tarde, contam os ativistas com imenso orgulho desse religioso que era deles um pouco, também.

Talvez muitos não saibam. Dom Paulo presidiu o Comitê Internacional de Especialistas contra a tortura (Cepta). A ideia matriz era criar um sistema de visitas de surpresa a centros de detenção, celas, ou quaisquer lugares que abrigassem prisioneiros. Desses esforços nasceu a Convenção das Nações Unidas contra a Tortura, em 1984, e o mecanismo de visitas, que agora é lei no Brasil – ainda que boicotado pelo governo atual, que suprimiu a remuneração dos peritos. O mecanismo resiste graças a uma liminar dada por juiz estadual, pendendo no Supremo Tribunal Federal (STF) o julgamento de uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), em face do decreto ilegal.

Criou um serviço de proteção jurídica para refugiados, durante a vigência de ditaduras militares no Cone Sul. Abençoou a criação, em São Paulo, da Associação Paulista de Combate ao Desemprego, política pública não governamental desenhada por várias religiões. Idealizou e protegeu a construção do Brasil Nunca Mais. Foi a coragem e a presença viva por trás da Comissão Justiça e Paz e do Clamor.

Sofreu perseguição e atentado. Salvou vidas, interrompeu tortura, como conta Ricardo Carvalho, em “As muitas vidas de Dom Paulo Evaristo Arns”. Sempre torceu pelo Corinthians.

Uma lenda. Uma lembrança viva para fortalecer a luta contra o retrocesso em termos de direitos humanos.

DE ESPERANÇA EM ESPERANÇA
Este texto faz parte da série de artigos que a Comissão Arns vai publicar em homenagem ao centenário do arcebispo de São Paulo, a ser celebrado em 2021.