O papa anticomunista e o cardeal antiditadura

Laura Greenhalgh

26.10.2020

Em 8 de fevereiro de 2005, rumores da morte de João Paulo II se intensificaram, acendendo o alerta geral. O papa polonês vinha, há oito anos, em acentuado processo de degradação física. Dizia-se de tudo: que ele tinha apenas lapsos de consciência, que respirava por aparelhos e até que já havia morrido. À nossa memória voltava a imagem do pontífice cambaleante, cabeça pendida sobre o corpo frágil, enfrentando eventos públicos apesar de carregar tantas enfermidades.

Nesse dia em que jornalistas se perguntavam se era hora de fazer as malas e seguir para Roma – de fato, o papa ainda viveria mais dois meses – convidei D. Paulo Evaristo Arns, cardeal e arcebispo emérito de São Paulo, para uma entrevista sobre o momento que o mundo católico atravessava, publicada no caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Ouvira, de fonte segura, que D. Paulo era favorável a algo impronunciável nos círculos da Igreja: a renúncia papal. A última vez que tal ruptura havia se dado foi com Celestino V, no século 13. Desse momento em diante, papas morriam papas. Ou seja, no cargo.

Encontrei D. Paulo à tarde, no dia da semana que ele reservava para receber de moradores de rua a figurões da República, no pátio da igrejinha de São Francisco, ao lado da tradicional Faculdade de Direito da USP, no centro de São Paulo. Terminada a agenda do dia, falamos longa e animadamente. Uma conversa profética, da parte de D. Paulo, já aposentado. Sim, papas deveriam renunciar, se e quando preciso, e isso se confirmaria anos depois, por ninguém menos que Bento XVI, um notório conservador.

D. Paulo estava com 83 anos, um a menos que João Paulo II, e há sete fora do comando da arquidiocese de São Paulo. Mantinha-se firme, dinâmico, memória impressionante. Recordou várias passagens suas com João Paulo, num convívio de décadas. Confirmou que o pontífice nunca aprovara o seu enfrentamento com a ditadura militar no Brasil, em defesa dos perseguidos políticos, torturados e mortos pelo regime. Mas também nunca chegou a censurá-lo por acolher livros e defensores da Teologia da Libertação.

A cada visita cardinalícia de D. Paulo ao chefe em Roma, João Paulo o recepcionava com três perguntas, sempre feitas em alemão: “Paulo, você tem cuidado dos pobres? Tem cuidado dos trabalhadores? Tem cuidado dos jovens?”. Preocupações válidas em se tratando de um cardeal que estava à frente de uma arquidiocese com milhões de pessoas. D. Paulo ainda mencionou uma carta de João Paulo II, lida em um encontro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), onde afirmava que a Teologia de Libertação “não foi só oportuna, mas necessária à evolução teológica da Igreja”.

Nesta entrevista, compartilhada aqui, D. Paulo discorreu sobre os papas com quem conviveu: Paulo VI, por quem nutriu apreço especial; João Paulo I, cujo papado durou 33 dias; e, claro, João Paulo II, no trono de Pedro por 23 anos. Sobre o papa Bento XVI, não há comentário, já que a entrevista precede a eleição do cardeal Ratzinger. Este renunciaria em 2013. Tornou-se papa emérito e abriu uma nova era na Igreja católica.

Um trecho da entrevista marcou a jornalista. Palavras de D. Paulo: “Na última visita oficial que fiz a João Paulo II, quando deixei a arquidiocese de São Paulo, eu me levantava para me despedir quando ele disse: ‘Espera, Paulo, tenho uma carta para você. Fizeram o texto e eu só preciso assinar’. Então, propus ao papa que lêssemos juntos a carta enviada pela Cúria Romana. Era um memorando de três páginas, com vários tópicos, escrito em português, totalmente contrário a mim. Comecei a ler, traduzindo para o alemão palavra por palavra. Na altura do terceiro parágrafo, o papa se indignou: ‘Eu não assino! Nunca falei isso de você, Paulo, nem quero afirmar isso!’. E jogou o papel no chão. Eu o apanhei. Daí, João Paulo II determinou que eu mesmo escrevesse duas linhas, dizendo que ele considerava respondidas -- satisfatoriamente por mim -- as questões apresentadas no documento, sem nada a declarar. E assinou”.

O documento preparado pela cúpula do Vaticano ainda tratava intrigar o arcebispo de São Paulo, no momento de sua partida do posto: dizia que ele não fizera uma casa para os padres velhinhos, que não se ocupou com a formação dos jovens e outras inverdades forjadas. O problema é que D. Paulo sempre contou o que se passava em São Paulo a João Paulo II, “sempre fui sincero com ele”. De fato, as divergências entre ambos, e eram várias, jamais sobrepujaram o respeito mútuo.

Reviver este testemunho do patrono da Comissão Arns, tal como outros episódios de sua vida, ajuda-nos a encarar os tempos atuais. Tempos em que os divergentes deveriam parar de tentar se aniquilar o tempo todo, num exercício não só pouco produtivo, como perigosamente insano.

Laura Greenhalgh, jornalista, é integrante da Comissão Arns