A luta de D. Paulo não pode ser esquecida. Para não ser necessária de novo

Margarida Genevois

12.08.2021

Certo dia do ano de 1972, em plena ditadura, fui convidada por meu amigo, o advogado Fábio Konder Comparato, a participar de uma reunião da Comissão de Justiça e Paz. Eu perguntei a ele do que se tratava essa comissão, o que fazia, e ele respondeu que seria muito complicado explicar por telefone. Mas que eu entenderia quando lá chegasse, na casa de Dom Paulo Evaristo Arns.

Aceitei o convite e imaginei uma residência à altura do arcebispo metropolitano de São Paulo, nomeado pelo Papa Paulo VI. Encontrei uma casa modesta, onde as pessoas se juntaram na cozinha, que ficava nos fundos, mais afastada da rua, portanto, mais segura para se conversar à vontade. A meu lado, vi José Carlos Dias, Dalmo Dallari, José Gregori, entre outros que eu não conhecia.

Ouvi mais de duas horas relatos de prisões, torturas, desaparecimentos de pessoas. Jovens que ninguém tinha ideia de pra onde tinham sido levados – muitos nunca aparecerem e os que apareciam estava machucados, destruídos psicologicamente. Dramas que uma jovem como eu, filha de classe média, sem formação política, nem desconfiava que fossem possíveis. Eram coisas das quais não se falava. Histórias proibidas de noticiar no jornal.

Essas pessoas e seus familiares estavam desesperadas e não tinham a quem recorrer. Na época, tinha-se o costume de dizer: “Vá reclamar para o bispo!”. E era literalmente o que elas faziam, pediam ajuda a Dom Paulo. Pois as autoridades oficiais não se interessavam, mudavam de assunto, as famílias eram mal recebidas.

O bispo várias vezes resolvia, pelo menos em parte. Mas sozinho não podia fazer muito. Por isso reuniu aquele grupo de advogados que apoiavam a igreja e trabalhavam pro-bono, e outras pessoas que se dispuseram a ajudar, como eu. Assim surgiu a Pontifícia Comissão de Justiça e Paz, para a defesa dos direitos humanos, cujo título “pontifícia” representava a chancela papal – o que significava que qualquer ataque à comissão iria repercutir no Vaticano.

Dom Paulo me pediu para ir à cúria uma tarde por semana, tomar nota das pessoas que procuravam desaparecidos políticos. Para mim, tudo que ouvia era uma horrenda surpresa. Eu ouvia aquela gente, abraçava, chorava junto, sofria junto. Às vezes, não tinha nada pra dizer de tão trágicos que eram os acontecimentos. Descobri torturas que nunca pensei que fossem possíveis, eu não gosto nem de me lembrar, seria uma defesa esquecer. Imagine as pessoas que tinham seus pais, seus filhos, nessa situação!

Essa experiência me modificou, me marcou profundamente, nunca mais fui a mas depois de tudo que ouvi.

De uma vez por semana, passei para duas, depois três, depois me dediquei em tempo integral. E assim eu descobri outro mundo. Parecia que e tinha vivido em uma bolha, que de repente se rompeu. Até então, eu não me interessava por política pois fui criada assim. Política não era uma coisa de moça de família se ocupar. Política era muito ruim, muito difícil, sobretudo para uma mulher...

O meu papel era mais de confortar as pessoas. Acho que ajudei um pouquinho a muitos deles que diziam: “Em volta de mim eu não posso falar sobre esse problema. Aqui na cúria é um consolo, pelo menos eu sinto que alguém se preocupa comigo”.

Esse alguém era D. Paulo.

Hoje sinto que os jovens não se interessam e não sabem o que foi a ditadura, o que fez D. Paulo tentando aliviar tanto sofrimento. Isso me machuca muito. É preciso não esquecer esses dramas. Para não deixar que aconteçam de novo. É preciso defender a democracia, tão frágil, que se abala com coisas tão absurdas.

Vamos juntar nossos desejos, nossos sonhos e enfrentar as dificuldades!