Jorge de Souza Hue, o melhor artífice

Paulo Sérgio Pinheiro

23.08.2021

Um brasileiro notável nos deixou, no dia 19 de agosto. Poucos dias depois de completar 98 anos, ocasião em que eu lhe prestei uma homenagem, em artigo publicado no jornal O Globo. Me referi ao destacado arquiteto, grande amigo e meu mentor Jorge de Souza Hue como “il miglior fabbro”. Porque o considero o melhor artífice em diversas artes que forjam a cultura no Brasil .

No texto, ressalto: “Intriga-me sempre em Jorge a combinação de erudição com apropriação amorosa e generosa da expressão brasileira. Consciente de que a retomada do gesto brasileiro, produto de uma herança portuguesa e ibérica, é muito mais do que a mera reprodução de elementos incorporados de maneira ornamental, que resultaram, adverte-nos, em pastiches, caros, complicados e muito datados”.

O legado de Jorge garantirá sua presença viva na história da arquitetura brasileira e na memória de seus amigos.

Jorge de Souza Hue, il miglior fabbro, sempre (Jorge de Souza Hue, o melhor artífice, sempre) O Globo (16/08/2021) Por Paulo Sérgio Pinheiro

“Que você fez, que você fez com sua vida? — vozes clamam em muitas línguas ouvidas em suas andanças por dois continentes. O que você fez com sua vida, o que você fez?” Czeslaw Milosz, Capri

Impossível entender Jorge deslocado dos jardins, escadas, varandas, azulejaria, beirais, telhas canais, telhados de quatro águas, treliças, claustros, quartos, bibliotecas de palácios do infinito que povoam sua obra. Dá a impressão que percorreu, registrou tudo.\

Jorge sempre opera interessado pelo fenômeno da construção, num cenário da casa em si e o que ela significa, pensada mais do interior que do exterior, a casa como máquina de morar, como disse Le Corbusier. Cada uma de suas casas, palácios, obras públicas, centros de estudos, igrejas, clubes, museus, é resultado da genealogia de multiplicidade de elementos através das épocas que reestrutura numa trama original. A simplicidade, a contenção, o despojamento, o bom senso e a lógica sempre acompanham o seu gesto profissional. Tão importante quanto a obra realizada, são as etapas formadoras, o fugaz magistério, o discurso-andaime das construções criadas.
Jorge de Souza Hue, arquiteto brasileiro, é exemplar único. Amigo e parceiro de Roberto Burle Marx e Oscar Niemeyer, completa hoje 98 anos de jornada pela vida. Como arquiteto, confessou certa vez, considera-se um simples maquisard, parodiando seu mestre Lucio Costa, que teve para ele importância extraordinária. Chamando-o de seu pai espiritual, admirando-o em sua capacidade fantástica de perceber as coisas, até hoje aprendendo com ele.\

Tendo nascido e vivido sem necessidades materiais, jamais se deixou limitar no privilégio, ou melhor, soube como poucos ultrapassá-lo. Antes de tudo, desde cedo, através de apropriação de cultura avassaladora. É um de nossos maiores polímatas, seu conhecimento não está restrito ao âmbito da arquitetura. Domina a história mundial, a literatura ocidental, certamente a francesa, inglesa, portuguesa, italiana, russa (lê e relê todo o Tolstói) e a brasileira. Mas nada nele é livresco, entremeando o que leu com o sentimento da experiência quotidiana, alargada pela revisitação da lembrança.\

Obviamente, além da literatura, as artes plásticas, nas quais combina um museu imaginário onde não há etnocentrismo.\

A arte para Jorge não é contemplativa, mas interativa, sempre reelaborando respostas relevantes para a vida ativa. Todos e cada objeto têm um sentido próprio, se articulam numa rede de interdependência de significados. Terá ajudado Jorge nunca ter deixado de desenhar um dia sequer, nem que fosse a ponta de um guardanapo de papel (tenho várias provas).\

Intriga-me sempre em Jorge a combinação de erudição com apropriação amorosa e generosa da expressão brasileira. Consciente de que a retomada do gesto brasileiro, produto de uma herança portuguesa e ibérica, é muito mais do que a mera reprodução de elementos incorporados de maneira ornamental, que resultaram, adverte-nos, em pastiches, caros, complicados e muito datados. Na sua arquitetura, Jorge sempre demonstrou um domínio total sobre os materiais brasileiros, não como adornos, enfeites tropicais exóticos, mas estrutura definidora de seus projetos.\

Olhando para trás, creio que Jorge exerce sua influência sobre todos nós seus amigos, admiradores e ouvintes embevecidos porque tem uma formidável curiosidade, jamais cessa de fazer perguntas sobre o tempo, a vida, a história. Sempre com Anna Luiza, sua saudosa mulher e companheira, coniventes em tudo que fizeram juntos em 73 anos de casamento, impossível falar de Jorge sem lembrá-la. Conversa fundamental para Jorge é aquela que mantém com suas três filhas e seus quatro filhos (incluído e lembrado o saudoso Jorge Eduardo), 16 netos e 12 bisnetos e com todos seus amigos.\

Tirando o conhecimento que adquiriu no curso de seus hoje 98 anos, para ele é esse convívio que vai lhe dando o aggiornamento que o faz contemporâneo de seu tempo, dele mesmo, de toda sua família, de seus amigos. Como eu, que tenho o privilégio de poder conviver faz 50 anos com Jorge, como querido amigo e meu mentor para o que fiz com minha vida.