Bolsonaro, o Anti-vaxxer

Laura Greenhalgh

25.09.2021

A notícia da morte de três irmãos de uma mesma família de Santa Catarina, adultos não vacinados contra a Covid, traz de volta as cenas do presidente Jair Bolsonaro – ao que se sabe, também não imunizado – desfilando com ministros e assessores em Nova York, numa trupe que passeou sem máscaras, mastigou pizza na esquina, foi às compras e ergueu o dedo do meio para manifestantes em protesto.

Mas, o que une a tragédia familiar da pequena cidade catarinense de São João do Sul ao vexame diplomático do presidente brasileiro na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU)? Certamente, algo que extrapola o elemento em comum, a não-imunização. No caso dos irmãos Carboni, duas irmãs não teriam se vacinado por serem diabéticas e, desinformadas, preferiram rejeitar o imunizante com medo de possíveis complicações. Já o irmão delas recusou-se a tomar a vacina porque “tinha que sair de casa para trabalhar”. Ou seja, três recusas ao imunizante, três contágios, três óbitos e uma família dilacerada.

No caso do presidente da República, a recusa pela imunização jamais poderá ser creditada à falta de acesso a informação científica de qualidade, caso ele tivesse algum interesse nisso. Não tem. Nunca teve. À frente de um país com o segundo mais alto índice de mortos pela Covid no mundo – quase 600 mil vidas perdidas –, Bolsonaro segue no centro dessa tragédia sanitária e humana que se abateu sobre o Brasil, firme no papel de desinformante-mor da Nação.

Seria patético se, antes, não fosse grave. Vejamos: o que move o presidente brasileiro a se gabar, para o mundo, de não ter sido vacinado? O que explicaria a sua descortesia com as autoridades de Nova York e o discurso repleto de mentiras no púlpito das Nações Unidas? Como entender que, apesar da sua comitiva ter regressado ao Brasil com contaminados e de o ministro da Saúde ser obrigado a cumprir isolamento em Nova York, Bolsonaro, isolado em palácio, ainda queira saber se os viajantes adoecidos eram vacinados – portanto, menos protegidos, o que confirmaria a sua crendice sobre a ineficácia das vacinas?

Seguramente, tudo isso tem a ver com a ignorância pessoal que o colocou na defesa de remédios sem eficácia, na crítica ao distanciamento social e até ao uso de máscaras, o mais acessível método de barreira para frear a pandemia.

No entanto, também a ignorância pessoal não explica tudo. Ainda que o negacionismo de Bolsonaro se reflita na condução catastrófica do país ao longo da pandemia – o que aponta para crimes de responsabilidade, crimes comuns, crimes contra a humanidade –, o presidente lida com a sua irredutibilidade como um trunfo. Não faz isso ao acaso, mas guiado por estrategistas que lhe vendem perigosas fantasias de poder e dominação, encampadas pela junta familiar que nos desgoverna. 

Bolsonaro, o Anti-vaxxer (expressão em inglês atribuída a ativistas antivacina), poderá se valer desta indumentária para se apresentar como um candidato presidencial renovado, de olho em estancar a queda nas pesquisas. De ceifador de vidas, procurará ser visto como o protetor de vidas, falando diretamente a milhões de brasileiros fora das suas bolhas na internet, porém suscetíveis ao seu discurso espalhador de dúvidas.

Como a informação científica não lhe interessa, tratará de manter suspeitas sobre a segurança das vacinas, além de martelar que a cloroquina poderia ter curado largamente, caso o tivessem deixado trabalhar. Assim, reiterando falsidades com obstinação, semeando suspeitas e insuflando o medo – afinal, qual é a mãe ou o pai que não estão atentos ao que possa prejudicar a saúde das suas crianças? – Bolsonaro seguirá seu roteiro de desinformação permanente, para ampliar o eleitorado.

Essa jogada não é nova. Olhando-se para o passado recente nos Estados Unidos, vê-se como movimentos críticos às vacinas deram origem a plataformas políticas. A extrema-direita norte-americana vinha se valendo deles há tempos, no Tea Party, encarnado por Sarah Palin, aquela estridente senadora do Alasca que não tinha a menor vergonha em afirmar: “Querem acabar com as nossas crianças”. Em 2014, o surto de sarampo que afetou uma centena de visitantes da Disneylândia, na Califórnia, gente não imunizada, revelou algo espantoso: a existência de bolsões antivacina pelos Estados Unidos, a ponto de comprometer a imunidade de rebanho de uma doença que se imaginava controlada.

Políticos foram eleitos em seus redutos graças ao potencial agregador do discurso em torno da vaccine hesitancy – como já comprovou, em artigos e livro, a brilhante jornalista norte-americana Tara Haelle. Isso aconteceu em Minesotta, no Tennessee, no Texas, em Ohio. Lançaram slogans dúbios – como “texans for vaccine choice”—, alavancaram recursos para a produção de filmes – como “Plandemic”, uma ode ao conspiracionismo – estimularam o falso confronto entre ciência, direitos parentais e autonomia médica.

Recentemente, republicanos de Ohio promoveram um evento juntando coalizões antivacinas com ativistas antimáscaras, o que serve para comprovar que os negacionismos convergem e se atraem. Toda essa doideira mostra que, mesmo com Donald Trump fora da Casa Branca, o trumpismo segue abraçando essas causas, num país onde 40% do eleitorado ainda tem dúvidas sobre a imunização contra a Covid.

Por isso, Bolsonaro continuará batendo nas mesmas teclas. Não foi diferente com as urnas eletrônicas, cujo debate o Congresso encerrou, mas não para o presidente. No caso das vacinas, ele tentará fazer com que o seu negacionismo seja visto como uma forma de zelar pela vida dos brasileiros. Tentará se mostrar mais durão do que Trump, que cedeu e acabou se deixando imunizar. Tentará dizer que tudo poderia ser diferente caso o mundo o tivesse escutado. É preciso tirar a máscara de Bolsonaro, o Anti-vaxxer.

Foto: Frederico Brasil / Futura Press / Estadão Conteúdo