"Não tenho a menor dúvida que estamos lutando contra o golpe que está para acontecer" - JOSÉ CARLOS DIAS, presidente da Comissão Arns

Amazônia, sua linda!

Laura Greenhalgh 25 Jul 2022, 8:56 Dom Philips Dom Philips, jornalista britânico assassinado na Amazônia - Foto: Marcos Corrêa/PR

Esta foi a última frase postada pelo jornalista britânico Dom Phillips antes de desaparecer, em 5 de junho deste ano, numa emboscada no Vale do Javari (AM), para ser brutalmente assinado ao lado do indigenista Bruno Pereira: “Amazônia, sua linda!”.

Aos 57 anos, Dom não imaginaria que uma singela declaração de amor, movida pela estupefação diante da natureza, seria o seu adeus a este mundo. E foi. Há poucos dias, no Stationers’ Hall, um edifício histórico no centro de Londres, foi a vez de amigos de Dom se reunirem em torno da sua mulher, a brasileira Alessandra Sampaio, e de seus familiares, para o adeus de quem não pôde vir ao Brasil para a sua cremação em Niterói, no final de junho.

O ato memorial em homenagem ao jornalista, um dos mais destacados correspondentes estrangeiros da imprensa britânica, seguiu desejos pessoais, expressos em testamento. Nada de choro e lamentações. Nada de flores e presentes. Em lugar disso, música e dança. Sua família, Alessandra, com Sian e Gareth, irmãos de Dom, seguiu à risca o testamento, e ainda acrescentou: nada de imprensa e redes sociais.

Cinquenta dias já se passaram desde o sumiço de Bruno e Dom nas correntezas do rio Itaquaí, quando viajavam em direção à cidade de Atalaia do Norte. Seus corpos foram encontrados semana e meia depois. Até o momento, pelo que se sabe, há aquela declaração prematura da Polícia Federal (depois relativizada) sobre a possibilidade de crime sem mandante; e algumas informações obtidas de suspeitos, agora réus confessos. Segundo estes, Bruno, que era um respeitado especialista em índios isolados e conhecedor da região, teria pedido que Dom fotografasse um barco de pescadores ilegais, gente da “máfia do pirarucu”. Diz-se que Bruno, servidor-licenciado da Funai, morreu pelo que sempre fez: defender os indígenas, suas terras, suas águas, seus modos de vida. E que Dom morreu por ter tirado a foto.

A elucidação completa e urgente dos fatos é devida aos familiares de Bruno e Dom, à sociedade brasileira, aos sistemas de proteção dos direitos humanos e à opinião internacional. Ao já informar que as vítimas teriam morrido por “motivo fútil” – o que até serve para agravar a pena –, as autoridades à frente das investigações acabam por alimentar o comentário de primeiríssima hora do presidente Jair Bolsonaro. Este, no início das buscas, chegou a dizer que Bruno e Dom se arriscaram numa “aventura” em lugar cheio de perigos. O que sugere culpabilizar as vítimas, para encerrar o caso.

Dom Phillips era um jornalista, não era um ativista. Como profissional experiente, apurando segundo critérios éticos e meticulosos, como inclusive atestam seus colegas, ele morreu em serviço, ao lado de quem deveria estar – Bruno Pereira, uma das melhores fontes de informação sobre a realidade dos indígenas isolados, povos amazônicos que estão sob o risco de extermínio, acossados por invasores e pelas políticas genocidas que hoje correm a solto no Brasil.

Transcrevo trecho de um comovente relato enviado por Tom Hennigan, correspondente do The Irish Times, sobre o amigo assassinado: “Foi a sensibilidade jornalística que levou Dom a um engajamento cada vez mais profundo com a Amazônia, sua importância não só para o Brasil, como para o futuro do planeta. E foi pesquisando informações sobre o tema que ele conheceu Bruno, os povos indígenas e os defensores da floresta”. Este compromisso profissional já ficara evidente num café da manhã de jornalistas com Bolsonaro, em 2019, no qual Dom pergunta com firmeza, mantendo a polidez, sobre a falta de políticas de fiscalização e preservação ambiental da parte do governo. Recebeu como resposta a grosseria e a arrogância de sempre.

Ironicamente, aquele momento seria um aviso de que o Brasil se tornara uma terra hostil para jornalistas como ele. Sempre vale lembrar: relatório da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) aponta 230 profissionais de imprensa vítimas de alguma forma de violência no país, no ano passado. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) listou mais de 400 episódios. Crescem os casos de assédio judicial contra jornalistas, acuados por processos e multas vultosas. E, no ranking mundial sobre liberdade de imprensa dos Repórteres Sem Fronteiras, o Brasil figura em 111º lugar – a pior colocação desde que o levantamento começou, em 2002.

Dom morreu em serviço, num país que ficou hostil a ele. Era um cidadão britânico, nascido na pequena Bebington, perto de Liverpool, em 1964 – ano em que o Brasil mergulhou na ditadura que duraria mais de duas décadas. Filho primogênito de Gillian e Bernard, tinha como irmãos os gêmeos Sian e Gareth. Cresceu num lar onde a natureza sempre foi valorizada, a ponto de a família costumar viajar de trailer, nas férias, percorrendo o interior do País de Gales e da Escócia. À noite tocavam e cantavam.

Foi a música brasileira que atraiu Dom Phillips ao Brasil. No final dos anos 1990, quando visitou o país pela primeira vez, era editor da revista inglesa Mixmag, a mais importante para os amantes da música eletrônica. Aqui descobriu não só outra música, mas o futebol, as moquecas (que aprendeu a fazer), a arte, a cultura, as trilhas pelas montanhas de Paraty, da Serra do Cipó, da Chapada Diamantina. E descobriu o amor de sua vida, Alessandra Sampaio. Conheceram-se em 2012, casaram-se em 2015, tinham muitos planos pela frente até aquele nefasto momento no rio Itaquaí.

Em 16 de julho, um sábado, a Catedral de São Paulo recebeu cerca de 2 mil pessoas para o ato inter-religioso Bruno e Dom Presentes: em Defesa dos Povos Indígenas do Brasil. Foi apresentado pela Frente Inter-Religiosa D. Paulo Evaristo Arns e promovido pela Comissão Arns, pela Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, pelo Instituto Vladimir Herzog e pela OAB-SP. A igreja ficou lotada.

Foi um momento de emoção e coragem, marcado pela presença de Beatriz Matos, esposa de Bruno, e de Alessandra Sampaio. Sem terem sido amigas no passado, mas unidas pela dor e por uma revolta que está entalada na garganta dos brasileiros, elas se abraçaram e choraram juntas. Tom Hennigan lá esteve. Em seu relato, enviado pouco antes do ato em São Paulo, ele previu o que as pessoas expressariam no Stationers’ Hall: “Dom era um inglês que amava o Brasil. Nós, seus amigos, só temos que agradecer a sua presença em nossas vidas”.